Tons pretos evanescentes e feixes lunares confeccionavam paisagem sombria embebida de forças sutis. Observava eu, em Uchovos, o deserto do céu e toda a sua soberania. Já passava das três da manhã. Ainda lembrava muito de Conguinha e meu peito ofegava. Permanecia estático, debruçado em uma janela velha de madeira que compunha um ambiente retrógrado. Tinha de dormir. Não dormia. Eu, pensando em um maquiavélico plano para entrar pela porta do sono, ouvi: “bééé". Era a minha cabra, Leopoldina, que berrava em um ato desesperador. Corri. Esquivava-me dos galhos que queriam me abraçar como se seus hormônios estivessem me chamando. Pisava na grama amarelada e enchia meu lindo sapato com um glacê natural de cor esverdeada - com um cheiro pouco tolerante - e tal feito fez com que minha face aproximasse do chão (caí) como um cortador de grama no qual meus dentes exerceram o papel das lâminas cortadeiras. Recompus-me e continuei andando em direção ao curral. Leopoldina só berrava em caso de perigo. Essa cabra era uma das relíquias da fazenda, não tinha fixação por beleza e sequer usava roupas, parecia que não era uchovense. A poucos metros da entrada, via uma inquietação dos pássaros que transmitiam sinais com se fossem detetives. Abri a porta e encontrei Leopoldina estirada com perfurações circulares no pescoço, sangue drenado e cara de espanto. Virei rapidamente os olhos e vi, nitidamente, o Chupa-cabra. Seus poucos centímetros e dentes incisivos serviam como método de aterrorizar os humanos. Sua face selvagem e pouco confortante estava suja do sangue da cabra que foi, literalmente, esgotada por ele. Consternado, ainda chorei. Agora o vento soprava marcha fúnebre e, acompanhado pela escuridão, segui o cortejo de Leopoldina. Coloquei-a na cova e jogava terra sobre seu corpo como se quisesse enterrar junto com ela essa maldição que acompanhava todos os uchovenses. O desprendimento material e culto da inteligência, cultura eram características da cabra. Parece que aqui isso tudo é proibido. Em sua lápide escrevi com barro: "Aqui jaz uma cabra que só foi cabra". Mas em Uchovos os animais são personificados. E essa figura de linguagem atende à necessidade de os animais acumularem um papel que vale. Chovia forte. As gotas d'água limpavam minh'alma e tudo mais que possa ser escrito com apóstrofo. Voltei para casa. Amanhã se acabam as insignificantes férias e tenho certeza que a Criatura atacará novamente se você, leitor, ousar infringir as normas da minha "querida cidade".(Qualquer semelhança com "A Vila" não é mera coincidência)
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