Há aqui, debaixo dos meus pensamentos,
uma maquetezinha, bem pequenina.
Que me ponho a manipular
em tempos de indignação
ou, até mesmo, nos dias das mais intermitentes frustrações.
Os cidadãozinhos multiplicam-se invisivelmente
e habitam de maneira
simplória a estrutura manipulável
do amor.
Aqui, eles amam.
Cegos, sempre.
Mas veem o chip
uns dos outros
esses chips que nós, humanos,
não vemos,
mas que,
mas que as informações contidas
são tão grandes
que ninguém observa ou julga
seu invólucro.
T*
Por olhos inexpugnáveis
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Numa tarde
I
Recuo na angústia
o medo por nunca ser
quem você mais quis
aquele de quem sente saudade
aquele ao qual se entrega
todas as noites,
nas mais
enfeitadas pelas estrelas.
Vivo nas incertezas.
na felicidade
por um simples
sorriso
por um simples cumprimento.
Na partida, vão-se meus sonhos
todos aqueles
que me prometiam
os mais intensos prazeres
com você.
II
Coube a mim, a idolatria.
E subordinação
aos teus
prendedores carnais
pérfidos.
E agora pedes socorro?
Lembra-te de que não tenho mais
coração.
Eu hei de ver tua agonia
hei de chutar teu rosto
hei de cuspir sobre teus olhos.
Empurrar-te-ei naquela sarjeta,
aquela conhecida de outrora,
a mesma na qual tu jogaste meu presentinho,
que dissecou com tua indiferença
numa chuva lacrimosa
do teu desprezo.
III
Não tento ver minha imagem refletida
nessas águas artificiais
da piscina
que de lado a lado
o vento leva
distorce
regenera
e só me mostra assim, sempre:
só.
Nem folhas, nem galhos.
Como é possível
esta face espessa
ser tão facilmente projetada
nessa tela
clara?
IV
O tempo fecha:
imersas.
O tempo abre:
imersas.
E meu coração permanece
curtido nesse vidro
de desencantos.
Mas com azeite.
Quando as flores brotarão?
E as sementes sempre imersas.
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Só eu?
Como eu queria
ter alguém que eu dissesse,
mas dissesse verdadeiramente,
que eu amo
e escutar que ela me ama.
Ter a noção, a minha noção,
de que não consigo viver sem ela
e que eu quisesse tocá-la, mordê-la
dizer que a amo mais que tudo
ser normal
ter um amor
ter um amor
e acreditar nele
não precisava ser um amor comum
poderia até ser um amor nutrido a éter
E só queria dizer:
Eu te amo mais que tudo
e esse tudo ser tudo mesmo,
eu queria sorrir o mais intenso sorriso
eu queria abraçá-la
bem apertado
Juro que gostaria de dizer aquele clichê
e pedir para que ela dissesse que me ama
sempre.
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Eu cá sem horizonte
Quando há montanhas transparentes
meus olhos insistem em vê-las
insistem em exterminar a incredulidade
no amor
forçam os músculos para encontrar
nesse meu horizonte
removido
transposto ao infinito
que meus olhos não alcançam
não veem o poente
não sentem a brisa
leve
livre
longe
lágrimas
umedecem
o aperto que aqui está
a ausência,
o vácuo revolvido
e, nas extremidades,
eu grito para me acolherem,
para me confortarem.
Porque meu futuro não aparece
foi-se, desmontado, em tropeços
meus planos foram raptados
e todos marcharam juntos.
Minhas amarras não me deixaram partir,
buscá-los
As amarras da desilusão
por não ser
quem minhas projeções
corrompidas
idealizaram.
Devido às falhas de expressão e pela pouca clareza, comentarei o poema. Nele, o eu lírico expõe a cegueira do futuro, do amor, fruto de uma desilusão. As montanhas transparentes são os grandes amores, algo que o eu lírico não consegue ver, não consegue acreditar. O título faz referência à condição humana de seres eucariontes que, embora desenvolvidos e organizados, não conseguem usar os sentidos integralmente, não conseguem administrar de forma coerente os sentimentos e, principalmente, o amor.
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Em mim mesmo
Um poço de aflições me rodeia
avassaladoramente,
ele expande seu orifício
a me engolir, a me engolir,
nas profundezas rasas
da razão que ainda tenho,
mergulho para proteger-me
para manter vivas as minhas paixões
para não derramar lágrimas cristalinas
nas mais sujas águas do medo
e para a saudade que
intrinsecamente
queima, seca
não degenere minha alma
nesse vazio preenchido
irrefutavelmente,
triste.
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Flor
Da efemeridade,
surjo, flor
para a contemplação
dos pássaros
que me tiram o néctar
atrativo recalcado,
sugam minha ingenuidade para a proliferação
que, de mim, levam as esperanças deslavadas
porque, talvez, minha corola não tenha cores
seja pálida como meu amor
seja escura como meus erros.
Nasci desse cacto seco
desapareço
desapareço
tão rápido
fujo
agonizo
no chão duro
murcho minhas pétalas
escorrem minhas lágrimas
evapora minha água, minha vida
e sirvo para adubo
depois de ser alimento
para insetos
vejo,
na revoada,
sorrisos imundos
do meu estado deplorável
eu, seca,
do amor que queria ter
desfrutado
queria que aquele pássaro
quisesse-me pela essência
pelo perfume,
mas eu não consigo trazê-lo
aqui, perto.
Sou só uma ferramenta,
sou matéria-prima
do perfume que eles dão às andorinhas
que sorriem, que felicitam-se
por terem amores
e terem quem as amam
e, jamais, morrem à espera
de serem apanhadas
para o mais belo buquê,
enfeitarem.
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(sem título)
Bem, pensei em exprimir tudo o que queria dizer por meio de um texto longo, que acabasse com a raça humana. Ou um poema melancólico que transmitisse o que eu estou sentido agora, aqui. Pensei em fazer um discurso torpe pelas decepções que eu tenho. Tentei formular um método psicológico mesquinho para conversar com um amigo. Tudo inútil. Posso resumir isso, em síntese clara e expressiva: Merda.
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