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uma interrogação
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NERDEMÊNCIA

O pensamento oblíquo implica personalidade átona

A Quermesse

Despontavam luzes da lona amarelada distendida sobre a praça. Coqueiros circundavam o espaço e davam um ar natural ao ambiente. E bem natural. Era noite estrelada. A fonte jorrava água multicolorida e, sim, era em Uchovos (tanta tecnologia já era previsível). A quermesse que se realiza semestralmente na Grande Uchovos estava em sua temporada e atraiu "milhares de habitantes". Pensei se iria. Fui e cheguei acompanhado de uma voz que saia da caixa de som exasperada e rouca. Os chiados comprometiam a assimilação e o prefeito cantava o bingo orgulhoso, cabelos ondulados para trás e comportados devido à tirania do gel.
_ B-18! - Proferia o ilustre.
_ Conferiu o terno da cartela número 22.
Infiltrei-me no recinto. A longínqua fila de mesas enfileiradas perdia-se na imensidão. Aquela elocução embaralhada das pessoas que se atinham ao sorteio parecia um dia de feira. As bocas mascavam ferozmente os amendoins que eram como balas de calmante. Caminhei pelo centro e avistava ao lado as barracas de maçã do amor. Maçãs do amor, ai. Como eram maravilhosas, eu até babava de tanta vontade. Mas elas não me amavam. O melado vermelho ficou preso nos meus dentes e travei uma batalha épica para tirá-lo. Tirei melado e dente, respectivamente. Mais passos e lá se encontravam as tortilhas da Itra. Resolvi presentear meu estômago. Uma, duas e não me venderam mais. Acho que perceberam o efeito colateral que estas me causavam. Da minha mesa via o padre nas escadarias da igreja. Bom moço. Sim, moço. Acho que tem uns vinte e poucos anos. Comia uma maçã. Não era maçã do amor. Certamente ele não se dava muito bem com melado. Caminhei com as mãos sem espaço para carregar mais comida. Sentei. Eu degustava aquelas delícias e aguardava a chegada da Conguinha. Demorou e fui à sua procura. Estupefato, encontrei um cartaz: "Frango assado - 12,00". Minha mente inclinou-se à perplexidade. Como uma cidade, na qual aves eram consideradas sublimes, podia-se matá-las e fazer bingo da sua pobre carne?. Os pensamentos passavam rapidamente na "minha máquina cinza". Larguei as maçãs e fui ao encontro de Conguinha. As estrelas se esconderam. Corri. Tropecei no velho Sr. Alfredo, um agricultor notável cujas plantações de "ervas" assimilavam-se ao "soma" da população. O comércio era tanto que não se podia proibir, pois até o delegado viajava no mundo das alucinações. Após, desculpei-me e continuei a marchar. Via os moradores de Uchovos fitando-me para constatar se eu vestia as roupas da grife "Pena's e Bico's" (eles defendiam o comércio local, protecionistas tolos). Eu, definitivamente, não vestia. Mas, prossigamos. Telefonei para a minha galinha e ela não atendeu. Temor. Ela garantiu que viria. Desliguei o celular e continuei andando por entre as mesas até o centro da festa.
Soara meia-noite. Surgia, dentre as sombras distorcidas do palanque, o ilustríssimo senhor Prefeito. O gel não mais conteve sua rebeldia e agora o ditador era seu próprio cabelo. Aquele olhar maligno de vilão invadia cada cidadão. O microfone tornou-se nítido. Chiados deram lugar à estridente voz e de lá soltou:
_ A partir de agora, esta galinha será o prêmio da próxima rodada do bingo. Olhem que maravilha!
Insisti em não acreditar. Era Conguinha. Decepada como um porco, cor dourada e embrulhada em um papel celofane vermelho como se fosse um peru natalino. As lágrimas não vieram. Permaneci estático. A imponência do prefeito rasgava-me. Era com muita naturalidade que ele anunciou o prêmio e toda a população aprovou. Eles eram uma espécie de tribais que comiam sua deusa (Conguinha) para ganhar a força. A galinha estava em ótima forma, rechonchuda e com pele de bebê.
_ Comprem as suas cartelas, pois estão acabando! - advertiu o prefeito.
Amontoavam-se como varejeiras no ponto de venda. O padre, as beatas e outras autoridades não demonstraram ojeriza e continuavam achando normal aquela atrocidade. Eu, observando melancolicamente, sentei e fiz breve retrospectiva dos meus momentos com Conguinha. Nesse ínterim, o bingo acabou e a contemplada com o prêmio fora D. Gerima (choro)... Ficou maravilhada e disse no microfone, agora pouco claro, que faria a ave no almoço dominical. Todos aplaudiram.
Em Uchovos, diferentemente das histórias encantadas, quando soa meia-noite não é possível que o habitante se transforme em aberração, pois isso já o é. Tentei reivindicar a morte, mas não tive forças. Eles gostavam de galinhas. Eles gostavam mais de dinheiro. D. Gerima, ainda muito sorridente, passou pela minha mesa e disse:
_ Vá almoçar lá em casa amanhã, farei uma galinhada supimpa!
_ Obrigado - essa palavra foi dita em tom deprimente e nem as maçãs me alegravam mais. Amontoei as comidas, coloquei o casaco e voltei para casa. Pobre Conguinha, dizia sempre que queria ter uma morte digna e pelo menos isso ocorreu. "Servir de alimento para um cidadão desta cidade é muita honra". Fui embora.
Hoje, estou mais ameno. Passou a dor. Aceitei até o convite de D. Gerima, afinal meu estômago é uchovense e não está politicamente correto depois daqueles brownies...

Postado por uma interrogação

Marcadores: Uchovos

5 comentários:

uma interrogação disse...

Espero seu comentário durante a madrugada...

2 de julho de 2009 às 16:14  
Anônimo disse...

Dois dias depois, venho com o comentário. Diria que também gostei desse texto. Achei-o um pouco comprimido demais, apesar de algumas pausas estratégicas em frases curtas. Gosto de algumas visões que ele passa: tirania do gel. Adorei a tirania do gel.
A transição de boa festa para festa demoníaca foi ótima, também. Pude visualizá-la completamente, foi cinematográfica!
Desculpe o atraso. Quando verei os outros textos?

3 de julho de 2009 às 22:31  
Anônimo disse...

Aliás, gravar esse texto seria es-pe-ta-cu-lar.

3 de julho de 2009 às 22:33  
Anônimo disse...

E foram dois dias, sim. É que o horário tá atrasado por aqui...

3 de julho de 2009 às 22:33  
uma interrogação disse...

Na verdade, tive que comprimir. Essa é a ideia. Uma descrição curta e suficiente, a transição ocorre de maneira rápida para não se tornar um texto cansativo e sugere a impressão de uma cachoeira de acontecimentos. Adoro essa sequência. Que bom que gostou. Então, gravar seria ótimo e ainda mais que nestes dias está tendo a quermesse aqui mesmo. Mas gravar sozinho não é possível. Postarei em breve...

6 de julho de 2009 às 11:45  

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