_ Que quer filho?
_ Nada.
_ Nada?
_ É nada.
_ Tome.
_ Sente fome, não?
_ Sinto, mas a tia me falou que iria me dar leite.
_ Leite?
_ Comida está caro, né?
_ Mas eu posso comprar, quer?
_ Não, seu moço. O que é isto em minhas mãos?
_ Tem certeza que não quer um pedaço desses aí? Imagine como estão suculentos. Olhe o requeijão em erupção!
_ Que isto, moço? Tenho de ir embora, a tia está lá no fundo.
_ Fundo?
_ Naquele onde se colocam os restos.
_ Lixo?
_ Lixo.
_ Sabe que é isso?
_ Sei não.
_ Abra.
_ ... é pra mim?
_ Sim, pra você.
_ Uma luva.
_ É. Você vai precisar.
_ Obrigado, seu moço.
_ Agradeço, seu moço.
_ Não. Agradeça aos que dizem que, ao invés de ajudá-los, devemos empurrar um trabalho.
_ Ao menos, não ficarei de mão suja.
_ De mão suja?
_ Integridade limpa é a sua. Eles que têm a mão suja.
_ Seu moço, eles tomam banho.
_ E pena que esse banho não limpa.
_ Até.
_ Vá feliz, garoto.
_ Irei.
Pizza boa que dói. Voltei à mesa e me deliciei até chorar de satisfação, mas deixei certo resto que depositarei lá nos fundos. Quem sabe ele não seja apanhado pelas luvas da mazela? Ah, já ia me esquecendo, mesmo infringindo as normas, dentro do pacote tinha um pedaço (não resto) que esqueci lá. Cabeça fraca a minha.