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uma interrogação
Excessos de moderação ainda não me permitem a liberdade.
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NERDEMÊNCIA

O pensamento oblíquo implica personalidade átona

A pizza e a luva

Passei por aquela pizzaria e o dragão da fome me fez parar. Os "pedaços de bom caminho" sorriam para mim. Sentei e chamei o garçom, como de praxe. Não veio, acho que pensou que eu não fosse comprar nada, só uma criança desgarrada da mamãe. Estatura, como engana. "_ Ei, garçom, aqui!". Olhou com face desacreditada, porém dirigiu-se até minha mesa. Esta, número sete. Deveria ter me sentado em outra. Cansaço. Fiz o pedido, e maquinava o dragão a deglutição do alimento da perdição. "_ Seu pedido, moço, licença”. Iniciei a alimentação e lambuzava os lábios como se os tivesse lubrificando. Esses pedaços de pizza são extremamente pequenos, como o preço. Bons. A abstinência de comida que já me fez dançar tango com a argentina Camélia estava sendo suprida. Triturando indelicadamente aquela azeitona, avistei um garoto em frente ao balcão no qual eram expostos os inibidores de dietas.
_ Que quer filho?
_ Nada.
_ Nada?
_ É nada.
_ Tome.
_ Sente fome, não?
_ Sinto, mas a tia me falou que iria me dar leite.
_ Leite?
_ Comida está caro, né?
_ Mas eu posso comprar, quer?
_ Não, seu moço. O que é isto em minhas mãos?
_ Tem certeza que não quer um pedaço desses aí? Imagine como estão suculentos. Olhe o requeijão em erupção!
_ Que isto, moço? Tenho de ir embora, a tia está lá no fundo.
_ Fundo?
_ Naquele onde se colocam os restos.
_ Lixo?
_ Lixo.
_ Sabe que é isso?
_ Sei não.
_ Abra.
_ ... é pra mim?
_ Sim, pra você.
_ Uma luva.
_ É. Você vai precisar.
_ Obrigado, seu moço.
_ Agradeço, seu moço.
_ Não. Agradeça aos que dizem que, ao invés de ajudá-los, devemos empurrar um trabalho.
_ Ao menos, não ficarei de mão suja.
_ De mão suja?
_ Integridade limpa é a sua. Eles que têm a mão suja.
_ Seu moço, eles tomam banho.
_ E pena que esse banho não limpa.
_ Até.
_ Vá feliz, garoto.
_ Irei.
Pizza boa que dói. Voltei à mesa e me deliciei até chorar de satisfação, mas deixei certo resto que depositarei lá nos fundos. Quem sabe ele não seja apanhado pelas luvas da mazela? Ah, já ia me esquecendo, mesmo infringindo as normas, dentro do pacote tinha um pedaço (não resto) que esqueci lá. Cabeça fraca a minha.

Postado por uma interrogação

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2 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei confusa nessa parte:
"- Que quer filho?
- Nada.
- Nada?
-É nada.
- Tome.
- Sente fome, não?
- Sinto, mas a tia me falou que iria me dar leite."

Esse "tome" e "sente fome, não?" são falas do mesmo personagem, não são?

10 de maio de 2009 às 11:20  
José Vinicius disse...

Sim. São do mesmo personagem

15 de maio de 2009 às 07:37  

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